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Camões como paradigma

25/05/2010

Em Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, a maioria dos versos está estruturada em redondilhas maiores, métrica das poesias mais populares de Camões.


Na Ilíada, de Homero, Odorico Mendes opera, mais do que uma tradução, uma verdadeira transcriação do poema, utilizando o verso decassílabo tal como Camões em  Os Lusíadas1.


JUSTIFICATIVA

Melopeia. Do prazer de cantar palavras.

A Melopeia é o termo utilizado por Aristóteles para referir-se ao poetas gregos da Antiguidade clássica, quando oralizavam suas poesias pelas ágoras e praças públicas. Suas poesias oralizadas conseguiam uma espécie de melodia, musicalidade – fruto da própria vivacidade associada à oralização -, por isso eram chamados aedos. Um dos teóricos modernos que resgatou o conceito de melopeia foi Ezra Pound. Além de nada se distanciar do sentido que a antiguidade clássica grega conferiu ao termo, a teoria de Pound é a que mais se aproxima do que sugerimos aqui como forma de encontrar uma fruição prazerosa da poesia. O teórico referencia este conceito como o ato de produzir correlações emocionais por intermédio do som e do ritmo da fala.

A proposta de utilização de dois textos com as características formaisIlíada e Morte e Vida Severinavisa privilegiar a oralização pela percepção da melopeia. É pelo canto, pela toada, pelo ritmo, pelo prazer musical que a récita de versos métricos proporciona, que almejamos conquistar o interesse do público não apenas para conhecer os conteúdos destes poemas – fundamentais! – mas principalmente assumir o gosto de narrá-los em voz alta. É tocando-os com os pulmões, com a voz, que os mitos contidos nestes poemas – é a tese de Pound – vem mostrar-se como arquétipos, como espelhos de nós mesmos. Ler estes textos não basta porque é pelos ouvidos que essa experiência se aprofunda.

Em termos antropológicos é preciso resistir a hegemonia da sensibilidade visual: da cultura do olho. E nisto a poesia deve ser alçada a um um papel de formação e resistência. Não se pode exigir que as novas gerações compreendam a poesia sem lhes oferecer a experiência da leitura de poemas e da récita. A experiência da poesia é uma experiência sobre a língua: sobre a música e as possibilidades criadoras da língua. E neste caso tratam-se de mestres no trato da língua portuguesa, mesmo em relação a Ilíada!, uma vez que a versão proposta para trabalho é a de Odorico Mendes, feita em decassílabos heroicos, considerada por Haroldo de Campos uma obra patrimônio da língua portuguesa.

Homero: os mitos: Importância e contexto

Todo leitor é, quando está lendo, um leitor de si mesmo“, disse Marcel Proust (1871-1922), autor da obra-prima Em Busca do Tempo Perdido. Isso acontece quando os personagens retratados servem de inspiração e reflexão para leitores de qualquer época e lugar. E isto não tem nada a ver com erudição; é o poder da arte: uma obra da antiguidade clássica é capaz de mobilizar as experiências cotidianas do homem contemporâneo. Homero oferece-nos um fabuloso retrato da humanidade: o mito. Estimular a circulação das imagens mitológicas é abrir mais um campo de reconhecimento e reinvenção para o homem. A humanidade não é, está sendo; os personagens de Homero constituem o mais antigo espelho artístico do homem ocidental. E os Severinos de João Cabral são arquetípicos da identidade brasileira. Estes mitos/arquétipos tem muito a nos dizer. Que tem medo de ouvir?

Ilíada Morte e Vida Severina: quem tem medo de poesia?

No que diz respeito a proposta, acrescentamos que mais do que a experiência de conhecer o argumento dos épicos, seu enredo e ouvir trechos de seus momentos de pico, é indispensável instrumentalizar as pessoas no sentido de tomar as rédeas destes poemas, sua intensidade e paixão. São de fato apaixonantes e é esta paixão que o projeto objetiva tocar; uma paixão que suplante a ideia de dificuldade.

De fato não é fácil. Há quem diga impossível. Há quem diga “Homero?! o povo gosta mesmo de novela”. Pode até ser verdade; mas gosta agora, por razões históricas, tecnológicas, políticas, enfim – melhor manter este texto em banho morno -, mas certamente não é um fado, uma sina cultural. Um outro gosto pode ser cultivado. Ações hoje com vistas ao amanhã. Se nossos educadores fruírem verdadeiramente a poesia, então seus alunos poderão fruí-la também, e seus futuros filhos também. Se nada for feito, nada será feito. Mas o tempo e a história exigem de nós o desejo de apostar naquilo que é necessário mesmo que agora nos pareça impossível. É preciso fazer. É preciso dizer Não ao NÃO. Contrariar essa lógica barata do “NÃO”, que é como uma praga: a saúva no nosso processo educacional, artístico, cultural. Tese: as pessoas necessitam e querem conhecer e reviver os mitos fundadores da humanidade e do povo brasileiro. Está tudo aí, é preciso fazer, tentar, talvez vencer e então mostrar que é possível, para então passarmos sem tanto esforço a dizer sim, sim, sim; é evidente que sim!

Louri

25 de setembro de 2010

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1“Terá, sem dúvida, o condão de repor na circulação sanguínea de nossa literatura essa magna obra tradutória, que tanto dignifica nossa língua” Haroldo de Campos , no lançamento da Odisseia, traduzida por Odorico Mendes quando publicada pela EDUSP

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O teatro fácil é objetivamente burguês.

O teatro difícil é para a elites burguesas bem cultivadas.

O teatro muito difícil é o único teatro verdadeiramente democrático.

PIER PAOLO PASOLINI

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Parte 1 do documentário sobre a itinerância do projeto “Quem tem medo de poesia!?”

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Metodologia

Em cada município serão três dias de encontros com a seguinte programação:

Primeiro dia Morte e Vida Severina

Manhã – 3 horas: das 9h às 12h

- Palestra sobre autor, obra, seu contexto histórico e cultura, tema, argumento, personagens e aspectos formais;

- Récita do texto pelo proponente; fragmento de 30 minutos;

- Perguntas da plateia sobre o texto e a récita.

Tarde – 4 horas: das 14h às 18h

- Oficina de récita: compreensão de texto, métrica, melopeia, ritmo e prática de oralização.


Segundo dia Ilíada

Manhã – 3 horas: das 9h às 12h

- Palestra;

- Récita de fragmento 30 minutos;

- Perguntas e conversa.

Tarde– 4 horas: das 14h às 18h

- Oficina de récita.

Terceiro dia – Sarau

- Récitas dos alunos de trechos das obras trabalhadas nas oficinas, e de poemas livremente escolhidos por eles;

- Coleta de récitas e de depoimentos para vídeo.

3 Comentários
  1. Uebaa!! O mundo precisa mesmo de mais poesia. Parabéns.

  2. Olá Lori estava na sua palestra sobre poesias hj em Quedas do Iguaçu, quero dizer-te que estou encantada com poesias vc ´foi responsavel por despertar esse interesse e desejo de cantar poesia, neste momento estou na faculdade e não paro de tentar cantar a primeira estrofe do canto I dos Luziadas, quero por quero quero decorar pelo menos o que vc passou para nos na folha, estou na sala de informatica neste momento e recitando em voz baixa para decorar ja teve pessoas que estavam ao meu lado e me olharam pensando” está louca falando sozinha”, rsrs

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  1. iliada e morte e vida severina « ilíadahomero

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